Quando se fala em tráfico de drogas, a pergunta mais comum feita à polícia é direta: se determinado local é conhecido pela venda, por que ele não é fechado de uma vez? A resposta passa por algo que nem sempre é visível para quem está fora da investigação e inquérito policial contra o tráfico de drogas no Brasil.
O ponto de venda, popularmente chamado de “biqueira”, é apenas a ponta do iceberg. É ali que a população enxerga a movimentação e, muitas vezes, as prisões feitas pelas equipes ostensivas, como Polícia Militar e Guarda Municipal. Essas forças atuam de forma preventiva e repressiva, realizando abordagens, prisões em flagrante e apreensões de drogas.
No entanto, o tráfico de drogas não se resume ao vendedor que está na rua. Ele faz parte de uma estrutura organizada, com divisão de tarefas e níveis hierárquicos bem definidos.
A ponta visível do tráfico de drogas
As equipes de policiamento ostensivo atuam diariamente em locais já marcados pela persistência da venda de drogas. Essas ações são fundamentais para interromper a comercialização imediata e gerar prisões em flagrante.
Mas, apesar das prisões, muitas vezes o ponto volta a funcionar. Isso ocorre porque o vendedor do varejo é apenas um elo da cadeia. Acima dele existem gerentes responsáveis por abastecer os pontos, organizar a divisão da droga em pequenas porções e recolher o dinheiro.
É nesse momento que entra o trabalho investigativo.
Como começa uma investigação e inquerito policial contra o tráfico de drogas
A investigação sobre tráfico de drogas pode ter início de diversas formas: a partir de uma prisão em flagrante, de denúncias anônimas ou de levantamentos já em andamento pelas polícias com competência investigativa, como a Polícia Civil e a Polícia Federal.
Com base nas informações coletadas, a autoridade policial pode representar à Justiça por medidas como quebra de sigilo telefônico e outras diligências legais. O objetivo é identificar quem fornece a droga, quem financia e quem coordena a distribuição.
Durante a apuração, surgem elementos que levam a locais utilizados para armazenamento em grande escala, conhecidos como “casas bomba”. Esses imóveis funcionam como centros de distribuição e abastecem diversos pontos de venda.
A investigação busca justamente sair da ponta visível e alcançar esses níveis superiores.
Tipos de drogas e a logística do tráfico de drogas
No Brasil, as drogas mais comuns nas apreensões são maconha, cocaína e crack.
A maconha, embora possa ser cultivada em território nacional, tem grande parte das apreensões relacionadas a rotas vindas de países vizinhos da América do Sul.
A cocaína é produzida a partir da folha de coca, cultivada principalmente em países andinos. Seu valor aumenta conforme atravessa fronteiras, passando por diferentes intermediários até chegar ao consumidor final.
Já o crack é derivado da pasta-base da cocaína e, muitas vezes, produzido próximo aos centros urbanos. Por ser mais instável e difícil de armazenar por longos períodos, é menos comum encontrar grandes carregamentos dessa droga em rodovias, diferentemente da maconha e da cocaína.
Cada tipo de droga influencia diretamente na forma como o tráfico de drogas é estruturado e investigado.
Facções e o tráfico de drogas internacional
Nos níveis mais altos estão organizações criminosas que controlam rotas, financiam carregamentos e utilizam intermediários para transportar drogas pelo país e para o exterior. Muitas vezes, as substâncias ilícitas são ocultadas em meio a cargas legais.
Para combater esse tipo de tráfico de drogas, entram em ação forças estaduais e federais, com uso de tecnologia, scanners, cães farejadores, análise de imagens e cruzamento de dados de inteligência.
Há situações em que carregamentos menores são usados como distração, enquanto remessas maiores seguem por outras rotas. Por isso, o trabalho investigativo exige planejamento, sigilo e integração entre diferentes órgãos.
O papel do inquérito policial
O inquérito policial é o instrumento formal que reúne provas, depoimentos e laudos técnicos. Ele pode nascer de uma prisão em flagrante ou de uma investigação já em curso.
Durante o procedimento, a autoridade policial coleta elementos que demonstrem a existência do crime e indícios de autoria. Ao final, o inquérito é encaminhado ao Ministério Público, que decide pelo oferecimento ou não da denúncia à Justiça.
O objetivo não é apenas prender quem está na ponta da venda, mas identificar financiadores, líderes e responsáveis pela logística do tráfico de drogas. Quando isso ocorre, além da prisão, pode haver bloqueio e apreensão de bens, atingindo diretamente a base financeira da organização criminosa.
Muito além da ponta do iceberg
Quando a população questiona por que determinado ponto continua funcionando, é importante entender que, muitas vezes, ele está sendo monitorado como parte de uma investigação maior.
O combate ao tráfico de drogas exige integração entre forças policiais, apoio do Judiciário e participação da sociedade por meio de denúncias responsáveis. A polícia tem o dever de agir, mas o enfrentamento efetivo depende de um trabalho técnico, estratégico e contínuo para desarticular toda a estrutura que sustenta o tráfico de drogas.















